Você só sabe que lhe olham
quando você os olha.
A moça que estava sentada à calçada vestia saia longa colorida e regata preta, descalça. Os cabelos, que agora soltos, perdiam-se em ondas pelas suas costas e ombros em uma fartura admirável. Qualquer um que a olha, assim como eu que o fazia agora, logo pensa: cigana.
A moça que estava sentada à calçada vestia saia longa colorida e regata preta, descalça. Os cabelos, que agora soltos, perdiam-se em ondas pelas suas costas e ombros em uma fartura admirável. Qualquer um que a olha, assim como eu que o fazia agora, logo pensa: cigana.
É notável como as pessoas
conseguem formar tantas opiniões precipitadamente errôneas em relação às
outras. Digo isto somente por intriga para com este imediatismo, porque aquela
mulher era realmente uma cigana.
Sei disto como todos os que
um dia já a conheceram um pouco mais intimamente – e não me refiro aos muitos
que já conheceram sua nudez, pois tenho certeza, então posso afirmar, que esta
era apenas uma faceta concorrente ao que ela verdadeiramente é.
Era dia, portanto, devido ao ávido movimento nas ruas, muitos a
observavam com curiosidade repugnante. Ela, contudo, só sabia de mim - de que a olhava -, até porque somente eu a interessava que olhasse. Sei que ela sabia, porque vi quando
me olhou enquanto a olhava. E não importa a mim que assim o seja e creio que
a ela também não.
Eu? Bom, eu estava no café do
outro lado da rua. E não era qualquer café, era O Café (o qual, apesar de toda a magnitude, não é assim tão relevante). Gostava ainda mais porque trabalhava lá um atendente um bocado simpático, com um sorriso do tamanho de seu corpo de dois
metros e vinte.
A moça do outro lado da rua trabalhava só
durante a noite: às vezes era Maria, a cartomante, às vezes Lola, a prostituta,
e às vezes Koko, a parceira de Leonel, o dono do Caprice. De dia era alguma das
três para aqueles que a conheceram numa noite qualquer; do contrário não era
ninguém. Para mim era todas.
Risos ao fundo.
“Não tem mesmo como ele ser.”
“E por que não?!”
Era obviamente uma pergunta retórica. Aquelas mulheres se deleitavam com algo que
provavelmente somente garotas achariam graça. Olharam para mim e viram que
também as olhava. Agora não tem escapatória. Sentaram-se à minha mesa e quando o atendente veio, elas o reconheceram da outra noite e o cumprimentaram. Pediram o mesmo
que eu e ele as trouxe um
“especial para moças bonitas”.
Eu não estava bem para
conversas longas e calorosas com temáticas de potencial futilidade, então as disse
que falaria com Koko e elas nem hesitaram em me deixar ir.
Enquanto caminhava para
longe e longe, olhei só mais uma vez e vi que Lola me olhava. Sorri calorosamente em um reflexo tão espontâneo que não houve tempo à contenção deste desejo, ao qual não recebi nada em resposta até hoje.