Eu havia dormido o dia
inteiro de novo – até as sete – tendo chego ao apartamento lá pelas quatro da
manhã. A noite passada fora longa. Os interessados em ver a apresentação do
Caprice foram poucos e eu não era autorizado a sair até que o auditório
enchesse pelo menos cinquenta vagas. Depois de lá ainda passei no club para gastar todo o dinheiro daquele dia em uma das bebidas de frutas de
tonalidade índigo.
Tomei banho gelado, pois meu
corpo fervia mesmo que a varanda aberta permitisse a entrada do frescor da
noite. Quando voltei ao loft (era disto que o apartamento se consistia: um loft
com cama de casal e uma mesinha pequena, um banheiro, uma varanda de 1m²), Neville
estava estirado ocupando três terços da cama.
Neville era o dono do
apartamento e me deixava ficar quando assim eu desejasse, afinal “ele gostava
de alguma compania”. Porém deixava óbvio que não era esta a realidade desde que
nunca nos encontrávamos – acordados – neste local minúsculo, por isso eu
evitava aparecer por aqui.
Saí e desci as escadas,
até porque o apartamento era apenas no terceiro andar e assim corria menos risco de
ter encontros desagradáveis. Coisa de gente pobre de cabeça: noticiada minha constância, boa parte dos moradores acusava Neville de
pedofilia e homossexualismo e a mim também não deixavam barato.
Deparei-me com um “Senhores
condôminos, favor não aparecerem despidos à varanda” no mural do hall de
entrada.
“Droga!” murmurei audível o
suficiente só para perturbar o porteiro noturno qual aparentemente tinha um
desconforto particular com minha frequência por ali.
Pensei que o anúncio se
referia diretamente àquele senhor gordão cheio de pelos corporais que
eventualmente abençoava a vista do edifício vizinho com toda a metade de seu
corpo que cabia naquela varanda, então ri.
O lugar d’Ele era
naturalmente distante daquele subúrbio que Neville se metera. Enquanto esperava
o trem, me perguntava se realmente iria até lá ou se faria uma parada oportuna
até a manhã seguinte novamente no club, que convenientemente era caminho.
Não é como se eu desgostasse
d’Ele, eu o odiava. Ele tinha esse senso errôneo de autoconfiança excessiva que
o fazia subestimar e diminuir os outros em prol de seu egocentrismo. E o que
mais me incomoda é ser subestimado.
Certa vez, ainda quando
desconhecia sua relevância em meu círculo social, interceptei seu diálogo com
uma conhecida, quem, aliás, há muito não contato. Essa garota é daquele tipo de
pessoa com quem é quase impossível ficar desconfortável; além disso, é de uma
beleza particular, quase exótica, ao ponto que se deve ter bom gosto para
apreciar. Ele quem iniciou conversa, flertou com ela! E então foi graciosamente
o mais arrogante possível: rejeitou-a e saiu do bar com uma dançarina.
No entando, odiá-lo era um empecilho infímo para o meu ânimo em visitá-lo. Muito talvez
não houvesse drinks de pêssego com corantes de todas as cores na festa!
Tão concentrado em meu ódio,
quase perdi a parada para o clube. Bem próxima à saída estava uma loira que me
penetrava com um olhar curioso. Em fim o trem parou e me detive ainda na porta
do vagão.
Também tinha aquela garota.
Envolta por uma aura de pavor e desespero que implorava por ajuda mesmo que
fisicamente impusesse feições de confiança e superação. Este tipo de pessoa era
o que me atraia mais do que íons positivos atraem os negativos (apesar de supor
que fôssemos ambos íons negativos).
Além do mais – e a porta do
trem se fechou –, se fosse ao club teria de voltar para o Neville e suportar sua
ausência, suportar o porteiro e o gordão e os moradores. Suportar estar sozinho
em uma cama tão desconfortavelmente grande.
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